PAINTING
| INSTALLATION | POETRY
O
imaginário é, sim, o que existe. O real,
se me permitem, é algo puramente inconsequente,
algo que não se traduz, algo impossível
de concretizar. Conhecemos as geografias e os corpos
em nosso redor através da imaginação
que cultivamos. Quando a imaginação
e o desejo são escassos, os amores e vontades
dos outros tornam-se loucuras.
Invariavelmente,
nós aqui, neste lugar, somos construídos
segundo relações flexíveis entre
a miséria e o desejo. O desejo consome e exige
a urgência da materialização do
faz-de-conta. No Carnaval, tal como no plano multi-dimensional
da imaginação, a Rainha e o Rei colocados
no cimo do andor desenhado pelo artista, que esta
terra quer sempre ter como anónimo, são
escravos dos nossos desejos de chegar mais além,
de cada vez ser mais outro e o Outro. Esconde-se o
feio que engloba gente. Gente que, apesar de ser parte
de nós é, inexplicavelmente, considerada
diferente.
A
irreverência é naturalmente constitutiva
da arte que faz perguntas, a arte que exibe o diferente
enquanto nosso, a arte que se quer posicionar dentro
do campo do político e por isso é Pecadora.
O questionar obviamente não desmembra o autocratismo,
mas revela desejos de mudança. No caso particular
do pintor, revela principalmente a vontade de mudança
para estados de sensibilidade e empatia no âmbito
de um contexto abrangente em que o Homem, Deus e a
Verdade foram declarados mortos no mundo real e que
somente vivem no campo do exercício dos poderes.
Apenas nos restam as vontades individuais de imaginar
os desejos dos outros como nossos.
Desde
a Rua da Praia, no Mindelo, num atelier com as portas
abertas para o mar, Tchalé Figueira, sempre
independente e certo das suas vontades e procuras,
compreende o compromisso de ser "agente criativo",
aqui neste lugar insular. O articular de perguntas
e desejos em prol de si próprio mas também
em prol dos que o sistema define como o "Outro
menor", os que o sistema teimosamente "circum-navega"
porque, em hora de eleições, um grogue
ou uma T-shirt servem como suficiente sedução.
Tchalé
explora a relação entre o acto e a crítica
social. Tristan Tzara, Max Weber ou Jean Dubuffet
sublinharam algumas directrizes que permitem compreender
a posição do pintor: consciente, sensível
e critico e, no entanto, determinado na perseguição
do exercício da pergunta. Na obra de Tchalé
Figueira, o político, a prostituta, o mendigo,
o paupérrimo, o medo, a vergonha, a vaidade,
a superficialidade, a tensão ou o desejo estão
presentes, vivos e pulsantes. As telas gritam-nos
perguntas acerca do nosso próprio papel.
Irineu
Rocha
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Tchalé
Figueira was born in 1953 in S. Vicente, Cabo Verde.
A
painter, a musician and a poet, Tchalé is undisputedly,
one of the ícons of Cabo Verde contemporary
art and arguably Cabo Verde's most internationally
exhibited visual artist.
'Do
Arco da Velha', is his first solo exhibition at INFLUX
CONTEMPORARY ART.